domingo, 21 de junho de 2020

Apesar da sua importância

Patrono da abolição, Luiz Gama é um dos maiores nomes da história do Brasil.

Porém, sua figura ainda não desfruta do mesmo tratamento dispensado a outros personagens que contribuíram para não somente para a causa da abolição da escravidão, como em outros episódios determinantes para a constituição do país.

Isso é assim apesar da sua importância.

"Em sua vida, Luiz Gama fora jornalista, professor, advogado, líder político, maçom, poeta, mas, principalmente, abolicionista. Era, portanto, um corpo estranho em um país de analfabetos e escravocratas em franca ebulição. Por ser autodidata, tornou-se rábula — atribuição pejorativa para um advogado legitimado pelo robusto conhecimento jurídico que podia exercer a profissão. Utilizava-se da posição na sociedade para ruir e subverter, muitas vezes por intermédio da sátira e do riso, as estruturas de poder de sua época. Como jornalista, conduzia denúncias diversas aos reclames cotidianos pelo seu viés liberal. Na área jurídica, atuava na consecução das liberdades como justiça social por alforrias e ações judiciais às centenas." Matheus Conceição, Revista Bula

Por que a história nacional o tem à margem, como tantos outros personagens negros, senão pelo racismo estrutural conservador e pela mentalidade colonialista hereditária que travam reparações sociais ao povo negro e prolonga sua invisibilidade na cultura brasileira?

O que pode mudar essa realidade?

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Lei mais: 


quinta-feira, 28 de maio de 2020

Nos bastidores da democracia

Proteger o Estado.

O serviço secreto brasileiro contemporâneo tem sua consolidação durante a ditadura militar iniciada com a deposição de João Goulart.

A agência de investigação, SNI (Serviço Nacional de Informação) foi criada em 13 de junho de 1964 pela lei federal 4.341. Era a reformulação da estrutura de informação e contra-informação organizada a partir de 1940, atividade permitida pela 2ª Seção do Estado Maior das Forças Armadas que garantia a prática de inteligência aos comandos militares, departamentos de segurança nacional e ministérios de governo. Em 06 setembro de 1946 o decreto 97.775 criava o Serviço Federal de Informações e Contra-Informações (SFICI), órgão de competência do Conselho de Segurança Nacional. O sistema informativo foi reestruturado por ordem do general e presidente da república a assumir o cargo após o golpe, Humberto Castelo Branco.

Voltado à segurança interna, o SNI tinha por função abastecer o governo de dados que garantissem o conhecimento do cotidiano político brasileiro em contextos estratégicos para reprimir organizações, pessoas e ações consideradas potencialmente ameaçadoras ao regime.

Perseguições, prisões, tortura, desaparecimentos, mortes e atividades terroristas estiveram associadas ao SNI e sua rede de agentes secretos por todo o Brasil.

O antigo SNI é hoje a ABIN.

Inteligência e estratégia são necessários a todos os estados, que possuem suas agências de espionagem.

O problema é se esse serviço for um instituto ideologicamente antidemocrático operando internamente nos bastidores da democracia.

Poderia ser foco de conspiração e sabotagem servindo a interesses contrários ao Estado Democrático de Direito?

A ascensão da direita e do fascismo no Brasil com sua narrativa anticomunista, anticorrupção e a necessidade de combater a esquerda possui alguma influência da ABIN como herança ideológica da guerra-fria, da ditadura e do SNI?
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Leia mais:

O Ministério do Silêncio ameaça a democracia - Viomundo 

Fonte: FGV
Imagem: Internet

domingo, 24 de maio de 2020

O lado esquerdo da fé

A luta de classes, conceito marxista, encontra na Teologia da Libertação sua conexão com a fé cristã.

A influência da ideologia progressista no cristianismo promoveu uma revolução que colocou internamente a Igreja Católica em ruptura: de um lado, o conservadorismo e a opção pela burguesia na direita política.

Do outro, o lado esquerdo da fé.

Na América Latina, em especial no Brasil, a cristianismo liberacionista encontrou terra fértil.

Que espaço a Teologia da Libertação ocupa hoje nas lutas sociais latino-americanas?

"A Teologia da Libertação ainda tem uma contribuição importante a fazer na reparação do destino deprimido da onda progressista na América Latina  — na recusa de um status quo consensual e inaceitável, e na militância paciente e reflexiva ao lado dos oprimidos." Hugh McDonnell

Por trás da questão está a reflexão sobre qual seria a solução viável para a concentração de renda, a centralização do poder e o etnocentrismo e os históricos problemas provocados por eles. 
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Leia em: 

O lado esquerdo da igreja - Jacobin Brasil

Imagem: Sebastião Salgado/Sindsemp-ma 

sábado, 2 de maio de 2020

Querem que eu comece?

Bastou um soco.

E alguns outros mais.

Ao reagir fisicamente a um grupo de fascistas que hostilizavam enfermeiros que faziam uma manifestação pacífica em Brasília (DF) no 1º de Maio, Sabrina Nery descarregou sentimentos de uma nação cansada de injustiças.

O gesto paradoxal de agir violentamente contra a violência é resultado de uma interlocução que abandou as palavras há muito tempo. Elas viraram um tipo de formalidade da linguagem, pois o conteúdo foi desprezado. A violência vai se tornando o bruto argumento de uma discussão feroz porque é radical.

Antes do soco, a pedrada

A reação de Sabrina faz lembrar um episódio.


Era dezembro de 1746, Gênova se encontrava ocupada pelos austríacos que, assim como os franceses, haviam invadido a Itália. Naquele dia 5, um canhão inimigo havia atolado e o comandante militar ordenou que a população ajudasse a empurrar a arma.

Não deu certo.

No meio da multidão, o menino Giovanni Battista Perasso, o Balilla, de apenas 11 anos, sentiu o sangue ferver.

O orgulho ferido e a ordem ultrajante bastaram para Balilla atirar uma pedra contra um dos soldados e gritar "Querem que eu comece?!", em genovês,
"Che l ´ inse?!"

A partir daí foram cinco dias de combates entre a população e o exército austríaco até a fuga do invasor.

Balilla se transformou em um tipo e herói das massas e sua figura é lembrada até no hino italiano:

I bimbi d´Italia
Si chiaman Balilla

As crianças da Itália
Se chamam Balilla

A história real de Perasso é controversa.
Resta o feito e o mito, a simbologia de liberdade que ele evoca.

Uma pedrada mudou a história.

Um soco para a história?

É cedo para dizer se a atitude espontânea de Sabrina Nery é potencialmente um acontecimento histórico.

Hoje é notícia pela dimensão do seu significado e isso é um indicativo de inequívoca importância.


Os socos da ciclista são nesse momento um símbolo de coragem latente de milhares de brasileiros fermentada pelo esgotamento sentido por essa parte da nação que absorve paciente a grotesca intimidação fascista que tomou espaço no país.

Os acontecimentos recentes levam os analistas a preverem um aumento de tensão entre o grupo extremista de direita pró-bolsonaro e os demais que hoje se encontram juntos na oposição democrata. Basta ver a aproximação de adversários políticos que agora pregam unidade contra o autoritarismo crescente.

Sabrina Nery pode ser um catalisador de ânimos.

Porque a pandemia vai arrefecer.

As ruas vão voltar a ser tomadas por quem hoje está isolado.

Os ressentimentos acumulados e reprimidos misturados à dor inconsolável pelas mortes de Covid-19 tratadas com a sádica indiferença do "e daí?" vão estar cara a cara com a minoria fanática e antidemocrática que hoje se sente empoderada.

Quando isso acontecer, quem dirá o
"querem que eu comece"?

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Leia mais sobre o tema em:

Um sasso contro il soldato e Balilla entra nella storia

Ato sindical de 1º de Maio une Marina, FCH, Lula e Ciro em palanque virtual  

Ciclista reage e bate em bolsonaristas que ameaçavam profissionais da saúde no Planalto  

Prepare-se para a guerra 
imagens: Pintrest e Fórum



quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

A indelével marca do nosso tempo

"Se Narciso está tão inquieto, é também porque nenhum discurso teórico consegue mais tranquilizá-lo." 

E quem é o Narciso assim perturbado descrito por Sébastien Charles senão o sujeito contemporâneo autoconsumido à procura do gozo ilimitado, imediato e concreto de si mesmo e para si mesmo?

Na hipermodernidade descrita por Lipovetsky, o hiperindividualismo, o excesso e a efemeridade são algumas das características da sociedade de consumo como modernidade agora consumada.

"Longe de decretar-se o óbito da modernidade, assiste-se a seu remate, concretizando-se no liberalismo globalizado, na mercantilização quase generalizada dos modos de vida, na exploração da razão instrumental até a "morte" desta, numa individualização galopante." Lipovetsky

Apenas a impermanência permanece como regra que emerge de uma ontologia: o delírio de Heráclito se concretiza.

Sob o império da inovação, tudo nasce obsoleto, consome-se veloz para ser substituído por aquilo que recém criado já vem envelhecendo.

Se o moderno é o novo desafiando o antigo e tradicional, o hipermoderno é o hipernovo desafiando a si mesmo em transformação vertiginosa.

Imersos na velocidade, teremos ainda história como narrativa de longo tempo entre as fronteiras das convencionadas idades ou os nossos registros ficarão mesmo como fragmentos múltiplos de culturas entre culturas sob o signo do imediato? 

Transforma-se também a identidade que, quanto mais se individualiza, mais se torna parecida consigo mesma apenas. Reconstrói-se nova como a juventude perpétua de Narciso, pois o que vê e procura apaixonadamente é reflexo seu e, insaciável, consome exageradamente o que lhe agrada como hiper-hedonismo querendo assim permanecer.

Para Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano contemporâneo,  (link abaixo) acrescenta que a individualização extrema não produz singularidade que multiplica a alteridade, mas significa a uniformização alienante de sujeitos dominados pela estrutura enquanto pensam que a ela dominam.

A subjetividade pós-moderna está enclausurada em si mesma, idiotizada e cada um acredita realizar o diferente quando o que faz é reproduzir o igual em um sistema consumista heterônomo que cria a falsa sensação da autonomia e da originalidade.

Esse sujeito angustiado, não necessariamente consciente disso, e carente de prazer pessoal consome-se aceleradamente sem se realizar, pois a meta é avançar em direção ao exagero jamais satisfeito.

Estaria aqui a indelével marca do nosso tempo?

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Leia mais:

Os Tempos Hipermodernos - Gilles Lipovetsky; Sébastien Charles

Byung-Chul Han: "Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização" - El País 

imagens: pinterest

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Aposentadoria: uma medida marxista para deter o marxismo

Marx não acreditava no socialismo jurídico conservador e burguês.

A classe burguesa concede direitos ao trabalhador por meio de leis como forma de manter o sistema capitalista onde é a burguesia quem controla a economia e a política.

"Uma parte da burguesia pretende compensar injustiças sociais, para assegurar a continuidade da sociedade burguesa." Karl Marx, O manifesto comunista.

Acabar com a exploração do trabalho, para Marx, significa implantar o socialismo até atingir o comunismo pela única via efetiva: a revolução, ou seja, a inversão das forças.

"Os comunistas desdenham ocultar suas opiniões e metas. Abertamente, declaram que seus fins só podem ser atingidos pela derrubada violenta de todas as condições sociais existentes." O manifesto comunista.

Porque o trabalho é o fundamento da apropriação.
O resultado do trabalho é propriedade do trabalhador, do qual ele é expropriado no capitalismo.

Estar inconsciente desse direito é estar alienado.

O poder que muda a história é concreto, material e não ideal, por isso a revolução.

Pois, no contexto do avanço da Revolução Industrial e das revoltas operárias da Europa do século XIX, o sistema moderno de aposentadoria foi criado para esvaziar os movimentos sociais proletários.

Otto von Bismarck, enquanto chanceler, recomendou ao rei da Prússia e imperador Alemão, Guilherme I, que instituísse um sistema de pagamentos estatais às pessoas com idade acima de 70 anos.

Bismarck era conservador e oligarca.

Tomou a medida para proteger a nobreza e os empresários alemães.

Para deter o marxismo revolucionário, adotou juridicamente uma reivindicação marxista: deu direito de aposentadoria ao trabalhador.

Mas, a exploração segue longe de acabar.

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Leia:

Da Alemanha ao Chile: a história da aposentadoria em diferentes países


quinta-feira, 11 de julho de 2019

Uma chama de sensatez na escuridão do espetáculo


"A especialização das imagens do mundo acaba numa imagem autonomizada, onde o mentiroso mente a si próprio. O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não-vivo." Guy Debord, A sociedade do espetáculo.

A televisão é tecnologia do moderno espetáculo. O espetáculo está na lógica das sociedades modernas que tudo convertem em simulação, propaganda e mercadoria.

A primeira e maior vítima a ser lastimada é a verdade.

Pois, na narrativa televisiva, não está a realidade, mas um recorte que tende sempre ao desconexo, uma farsa em si mesma porque é representação e intencionalidade, nunca o fato em toda a sua dimensão e concretude.

O espetáculo televisivo, enquanto se vende, mente para si mesmo e para quem nele acredita e o consome.

Ao se despedir do jornalista Paulo Henrique Amorim, morto aos 77 anos, o também jornalista e sociólogo Laurindo Lalo Leal Filho o faz apresentando uma crítica contundente à mídia televisiva brasileira. 


O desaparecimento de Paulo Henrique Amorim é o apagar de uma chama de sensatez na escuridão do espetáculo bizarro servido à massa imbecilizada do país.


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Leia:

Paulo Henrique Amorim, a televisão brasileira e suas mortes

Fake news é mentira?