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sábado, 5 de novembro de 2022

Sempre vencerá

A democracia vence.

Vencerá sempre. A certeza disso pode estar alicerçada em diferentes bases teóricas e práticas e em todas elas há a expressão de uma necessidade: a da liberdade individual e dos povos.
Hegel, em sua filosofia, afirma que a consciência da liberdade é para o ser humano o despertar de uma ideia, daquilo que ele chama espírito. Esse despertar é progressivo e significa uma marcha histórica que vai da liberdade de um, com os reinos, a liberdade de alguns, com as aristocracias até a liberdade de todos, com as repúblicas.
A democracia, portanto, é um fato histórico em evolução que apela ao homem em sua consciência de liberdade e que só é possível, diz Hegel, dentro do Estado, onde a ética e as leis são a expressão objetiva da liberdade de todos uma vez que todos as seguem ou devem seguir.
Por mais que haja conflitos, eles são enfrentamentos de forças antagônicas, o choque dialético, dos quais surge um estágio mais alto da liberdade. "Estabelecemos a consciência da liberdade do Espírito e, com isso, a realização dessa Liberdade como objetivo final do mundo." Hegel, A Razão na História.
Retrocessos são temporários.
As caducas ideias autoritárias estão sendo derrotadas no Brasil pela força democrática de um Estado Democrático de Direito e de seu povo que sente e quer ser livre como Estado e sociedade.

Dessa luta histórica surge em síntese um Brasil mais maduro e politizado. Mais consciente de sua liberdade e seus limites. Um país mais seguro de si mesmo e de sua trajetória no tempo.
Um país reconciliado consigo e pronto para novas lutas em defesa da sua essência democrática, destino seu e do mundo.

Faz o L de Liberdade, Brasil!

Imagem: Uol

sábado, 15 de outubro de 2022

Esquecido e inutilizado coração

Nas aulas de filosofia da arte, conheci Rousseau. 

Eram tardes em uma sala da faculdade de arquitetura da federal do Rio Grande do Sul. Alunos da filosofia, mas não somente dela, aprendiam sobre estética e a relacionavam com o homem em sua integral existência: a ética, a política, a religião, a economia, o trabalho... o útil e o inútil, sendo este mais importante que aquele quando se reflete sobre o real sentido das coisas, segundo Heidegger. 

Com Rousseau, aprendemos a ver mais de perto a alma humana ou aquilo que a ela equivalha. Reflexões tão úteis quanto inúteis se o objetivo é encontrar sentido naquilo que se ensina ou se aprende na educação dirigida ao mundo que valoriza o domínio, a força, a competição, conquista, a vitória, o mérito... o individualismo, o hedonismo como desfrute dos mais capazes. 

Nesse dia do professor, uma página de Rousseau para pensar na seguinte questão: 

o que se quer quando se educa alguém?

"Sempre verifiquei que os jovens corrompidos cedo, e entregues às mulheres e ao deboche, eram inumanos cruéis; a fuga do temperamento tornava-os impacientes, vindicativos, furiosos; sua imaginação, tomada por um só objeto, recusava-se ao resto; não conheciam nem piedade nem misericórdia; teriam sacrificado pai, mãe e o universo inteiro ao menor de seus prazeres. 

Ao contrário, um jovem educado dentro de uma simplicidade feliz é levado pelos primeiros movimentos da natureza às paixões ternas e afetuosas. Seu coração compadecente comove-se com as atribulações de seus semelhantes; ele freme de alegria quando revê seu camarada, seus braços sabem encontrar amplexos carinhosos, seus olhos sabem verter lágrimas de ternura; ele é sensível à vergonha de desagradar, ao remorso de ter ofendido. Se o ardor de sangue que o inflama o torna vivo, exaltado, colérico, vê-se no momento seguinte toda a bondade de seu coração na efusão de seu arrependimento; ele chora, geme por causa do ferimento feito; quisera à custa de seu sangue resgatar resgatar o que verteu; toda a sua exaltação se extingue, todo o seu orgulho se humilha diante do sentimento de sua falta. 

Foi ele próprio ofendido? 

No ápice de seu furor uma desculpa, uma palavra o desarma; perdoa os erros dos outros da mesma maneira que corrige os seus. A adolescência não é a idade nem da vingança nem do ódio; é a da comiseração, da clemência, da generosidade. Sim, sustento-o e não temo ser desmentido pela experiência, um menino que não é mal nascido e que conservou até vinte anos sua inocência, é nessa idade o mais generoso, o melhor, o mais amante e o mais amável dos homens. Nunca vos disseram coisa semelhante, bem o creio; vossos filósofos, educados na corrupção dos colégios, não cuidam de saber disso." Emílio, p. 246. 


As contradições entre a vida e a obra de Rousseau não invalidam sua pedagogia. 


E ela nos mostra que por trás do útil para o qual muitas vezes se ensina, há um esquecido e bastante inutilizado traço humano. Sua essência mesmo, talvez, sua própria humanidade ou fundamento dessa sua condição e ser resgatada sendo reeducada.  



Um esquecido e inutilizado coração.    


Ilustração: fazendo história - wordpress

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

A pupila de Guadalupe

"Os indígenas são a pupila de Guadalupe."

Disse hoje o arcebispo de Aparecida, Dom Orlando Brandes, citando-os entre os humildes perseguidos e prediletos de um Deus ainda incompreendido pelo homem. 

Porque notícias trazem rumores de guerra. De injustiça, de expropriação. Desde a chegada dos colonizadores em terras americanas tem sido desse modo, com a bênção de própria Igreja que se corrige em parte. 

Os povos originários, legítimos ocupantes do Novo Mundo, para eles o único e ancestral, atravessam os séculos de hispanização em contínuo recalque da sua história, da sua cultura e da sua presença em sua terra. A grilagem, o garimpo, a invasão, a inculturação e mesmo a continuidade de uma política de extermínio velada na inação dos Estados, tudo isso que povoa manchetes tratadas com indiferença e certa desumanidade, é a herança presente de um passado colonial ainda vivo. 

Justifica-se, portanto, que o então Dia da Hispanidade seja hoje o Dia da Resistência Indígena. 

O 12 de outubro é data para refletir da decolonização, que é diária, e afirmar identidades nativas de todo o continente com o direito de todos à existência digna incluída definitivamente nas nações de toda a América. 

Só nesse dia, quando tudo for de todos, a visão de Guadalupe com o índio Juan presente será também a de cada um. 

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Leia mais em Brasil de Fato: Na América Latina, 12 de outubro é celebrado como Dia da Resistência Indígena 

Ilustração: Tuara Paez 

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Nos bastidores da democracia

Proteger o Estado.

O serviço secreto brasileiro contemporâneo tem sua consolidação durante a ditadura militar iniciada com a deposição de João Goulart.

A agência de investigação, SNI (Serviço Nacional de Informação) foi criada em 13 de junho de 1964 pela lei federal 4.341. Era a reformulação da estrutura de informação e contra-informação organizada a partir de 1940, atividade permitida pela 2ª Seção do Estado Maior das Forças Armadas que garantia a prática de inteligência aos comandos militares, departamentos de segurança nacional e ministérios de governo. Em 06 setembro de 1946 o decreto 97.775 criava o Serviço Federal de Informações e Contra-Informações (SFICI), órgão de competência do Conselho de Segurança Nacional. O sistema informativo foi reestruturado por ordem do general e presidente da república a assumir o cargo após o golpe, Humberto Castelo Branco.

Voltado à segurança interna, o SNI tinha por função abastecer o governo de dados que garantissem o conhecimento do cotidiano político brasileiro em contextos estratégicos para reprimir organizações, pessoas e ações consideradas potencialmente ameaçadoras ao regime.

Perseguições, prisões, tortura, desaparecimentos, mortes e atividades terroristas estiveram associadas ao SNI e sua rede de agentes secretos por todo o Brasil.

O antigo SNI é hoje a ABIN.

Inteligência e estratégia são necessários a todos os estados, que possuem suas agências de espionagem.

O problema é se esse serviço for um instituto ideologicamente antidemocrático operando internamente nos bastidores da democracia.

Poderia ser foco de conspiração e sabotagem servindo a interesses contrários ao Estado Democrático de Direito?

A ascensão da direita e do fascismo no Brasil com sua narrativa anticomunista, anticorrupção e a necessidade de combater a esquerda possui alguma influência da ABIN como herança ideológica da guerra-fria, da ditadura e do SNI?
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Leia mais:

O Ministério do Silêncio ameaça a democracia - Viomundo 

Fonte: FGV
Imagem: Internet

domingo, 24 de maio de 2020

O lado esquerdo da fé

A luta de classes, conceito marxista, encontra na Teologia da Libertação sua conexão com a fé cristã.

A influência da ideologia progressista no cristianismo promoveu uma revolução que colocou internamente a Igreja Católica em ruptura: de um lado, o conservadorismo e a opção pela burguesia na direita política.

Do outro, o lado esquerdo da fé.

Na América Latina, em especial no Brasil, a cristianismo liberacionista encontrou terra fértil.

Que espaço a Teologia da Libertação ocupa hoje nas lutas sociais latino-americanas?

"A Teologia da Libertação ainda tem uma contribuição importante a fazer na reparação do destino deprimido da onda progressista na América Latina  — na recusa de um status quo consensual e inaceitável, e na militância paciente e reflexiva ao lado dos oprimidos." Hugh McDonnell

Por trás da questão está a reflexão sobre qual seria a solução viável para a concentração de renda, a centralização do poder e o etnocentrismo e os históricos problemas provocados por eles. 
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Leia em: 

O lado esquerdo da igreja - Jacobin Brasil

Imagem: Sebastião Salgado/Sindsemp-ma 

sábado, 2 de maio de 2020

Querem que eu comece?

Bastou um soco.

E alguns outros mais.

Ao reagir fisicamente a um grupo de fascistas que hostilizavam enfermeiros que faziam uma manifestação pacífica em Brasília (DF) no 1º de Maio, Sabrina Nery descarregou sentimentos de uma nação cansada de injustiças.

O gesto paradoxal de agir violentamente contra a violência é resultado de uma interlocução que abandou as palavras há muito tempo. Elas viraram um tipo de formalidade da linguagem, pois o conteúdo foi desprezado. A violência vai se tornando o bruto argumento de uma discussão feroz porque é radical.

Antes do soco, a pedrada

A reação de Sabrina faz lembrar um episódio.


Era dezembro de 1746, Gênova se encontrava ocupada pelos austríacos que, assim como os franceses, haviam invadido a Itália. Naquele dia 5, um canhão inimigo havia atolado e o comandante militar ordenou que a população ajudasse a empurrar a arma.

Não deu certo.

No meio da multidão, o menino Giovanni Battista Perasso, o Balilla, de apenas 11 anos, sentiu o sangue ferver.

O orgulho ferido e a ordem ultrajante bastaram para Balilla atirar uma pedra contra um dos soldados e gritar "Querem que eu comece?!", em genovês,
"Che l ´ inse?!"

A partir daí foram cinco dias de combates entre a população e o exército austríaco até a fuga do invasor.

Balilla se transformou em um tipo e herói das massas e sua figura é lembrada até no hino italiano:

I bimbi d´Italia
Si chiaman Balilla

As crianças da Itália
Se chamam Balilla

A história real de Perasso é controversa.
Resta o feito e o mito, a simbologia de liberdade que ele evoca.

Uma pedrada mudou a história.

Um soco para a história?

É cedo para dizer se a atitude espontânea de Sabrina Nery é potencialmente um acontecimento histórico.

Hoje é notícia pela dimensão do seu significado e isso é um indicativo de inequívoca importância.


Os socos da ciclista são nesse momento um símbolo de coragem latente de milhares de brasileiros fermentada pelo esgotamento sentido por essa parte da nação que absorve paciente a grotesca intimidação fascista que tomou espaço no país.

Os acontecimentos recentes levam os analistas a preverem um aumento de tensão entre o grupo extremista de direita pró-bolsonaro e os demais que hoje se encontram juntos na oposição democrata. Basta ver a aproximação de adversários políticos que agora pregam unidade contra o autoritarismo crescente.

Sabrina Nery pode ser um catalisador de ânimos.

Porque a pandemia vai arrefecer.

As ruas vão voltar a ser tomadas por quem hoje está isolado.

Os ressentimentos acumulados e reprimidos misturados à dor inconsolável pelas mortes de Covid-19 tratadas com a sádica indiferença do "e daí?" vão estar cara a cara com a minoria fanática e antidemocrática que hoje se sente empoderada.

Quando isso acontecer, quem dirá o
"querem que eu comece"?

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Leia mais sobre o tema em:

Um sasso contro il soldato e Balilla entra nella storia

Ato sindical de 1º de Maio une Marina, FCH, Lula e Ciro em palanque virtual  

Ciclista reage e bate em bolsonaristas que ameaçavam profissionais da saúde no Planalto  

Prepare-se para a guerra 
imagens: Pintrest e Fórum



quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

A indelével marca do nosso tempo

"Se Narciso está tão inquieto, é também porque nenhum discurso teórico consegue mais tranquilizá-lo." 

E quem é o Narciso assim perturbado descrito por Sébastien Charles senão o sujeito contemporâneo autoconsumido à procura do gozo ilimitado, imediato e concreto de si mesmo e para si mesmo?

Na hipermodernidade descrita por Lipovetsky, o hiperindividualismo, o excesso e a efemeridade são algumas das características da sociedade de consumo como modernidade agora consumada.

"Longe de decretar-se o óbito da modernidade, assiste-se a seu remate, concretizando-se no liberalismo globalizado, na mercantilização quase generalizada dos modos de vida, na exploração da razão instrumental até a "morte" desta, numa individualização galopante." Lipovetsky

Apenas a impermanência permanece como regra que emerge de uma ontologia: o delírio de Heráclito se concretiza.

Sob o império da inovação, tudo nasce obsoleto, consome-se veloz para ser substituído por aquilo que recém criado já vem envelhecendo.

Se o moderno é o novo desafiando o antigo e tradicional, o hipermoderno é o hipernovo desafiando a si mesmo em transformação vertiginosa.

Imersos na velocidade, teremos ainda história como narrativa de longo tempo entre as fronteiras das convencionadas idades ou os nossos registros ficarão mesmo como fragmentos múltiplos de culturas entre culturas sob o signo do imediato? 

Transforma-se também a identidade que, quanto mais se individualiza, mais se torna parecida consigo mesma apenas. Reconstrói-se nova como a juventude perpétua de Narciso, pois o que vê e procura apaixonadamente é reflexo seu e, insaciável, consome exageradamente o que lhe agrada como hiper-hedonismo querendo assim permanecer.

Para Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano contemporâneo,  (link abaixo) acrescenta que a individualização extrema não produz singularidade que multiplica a alteridade, mas significa a uniformização alienante de sujeitos dominados pela estrutura enquanto pensam que a ela dominam.

A subjetividade pós-moderna está enclausurada em si mesma, idiotizada e cada um acredita realizar o diferente quando o que faz é reproduzir o igual em um sistema consumista heterônomo que cria a falsa sensação da autonomia e da originalidade.

Esse sujeito angustiado, não necessariamente consciente disso, e carente de prazer pessoal consome-se aceleradamente sem se realizar, pois a meta é avançar em direção ao exagero jamais satisfeito.

Estaria aqui a indelével marca do nosso tempo?

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Leia mais:

Os Tempos Hipermodernos - Gilles Lipovetsky; Sébastien Charles

Byung-Chul Han: "Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização" - El País 

imagens: pinterest

quinta-feira, 30 de maio de 2019

El Cordobazo


A história da América luso-hispânica é de exploração, de miséria, de escravidão, de vergonhosas injustiças sociais que se perpetuam. 

Cenário de lutas entre interesses que vão da ambição colonialista e imperialista consolidada na mentalidade senhorial prepotente das elites locais e a rebeldia das massas empobrecidas, mas não menos colonizadas em sua identidade servil.

Hoje são cumpridos 50 anos de um dos sangrentos episódios de enfrentamento entre trabalhadores e estudantes com as forças públicas da Argentina. 

O país está parado nessa data contra o governo Macri.

Arquivo - La Nación 
El Cordobazo, como é chamado o levante de classe ocorrido em Córdoba entre 29 e 30 de maio de 1969, recorda que uma sociedade justa não se constrói sem conflito devido a constante dialética de dominação e resistência.



Nessa quinta-feira, trabalhadores da educação e estudantes estão novamente nas ruas do Brasil tentando mudar a história que vem sendo escrita por senhores prepotentes e seus asseclas servis.



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Leia para entender mais: 




sábado, 12 de maio de 2018

Assassinos da História

Os crimes de Estado são essencialmente contraditórios: é o Estado quem delimita a legalidade por meio do direito e ele próprio viola deliberadamente este limite.

Sendo o Estado a instância máxima e soberana de uma sociedade constituída, uma vez que ele seja o agente do crime, recorrer ao próprio Estado fica comprometido.

Não se pode buscar legitimidade na ilegitimidade, justiça na injustiça, direito no não-direito.

Um Estado criminoso esvazia-se da função e niiliza qualquer pretensão de justiça.

Dawn Rothe, especialista no tema, descreve o crime de Estado como

"Qualquer ação que viole o direito internacional público, e/ou uma lei doméstica do próprio Estado quando tais ações são praticadas por atores individuais agindo em favor ou em nome do Estado, mesmo quando tais atos sejam motivados pelos seus interesses pessoais econômicos, políticos e ideológicos." 

Dos crimes de Estado, os mais graves e que historicamente provocam não somente os maiores traumas como também expõem a repetitiva prática de abuso do poder da violência, prerrogativa exclusiva dos Estados modernos, mas limitada ao direito positivo, estão o genocídio e as violações aos direitos humanos.

Ao analisar os crimes de Estado, o professor José Carlos Moreira da Silva Filho afirma que

"É o Estado que tem se revelado o principal autor dos crimes contra a humanidade. E isto traz um agravante, pois é justamente o Estado quem deveria proteger os seus cidadãos da violação dos seus direitos fundamentais."

À sociedade ferida pelos abusos despóticos do Estado confere-se o direito de conhecer os atos criminosos praticados por seus governos e por meio de instrumentos institucionais, como a justiça de transição, buscar a reparação, bem como exigir que tais ações não se repitam salvaguardando princípios universais em favor do direito humano.

"Justiça de transição é um termo de origem recente, mas que pretende indicar aspectos que passaram a ser cruciais a partir das grandes guerras mundiais deflagradas no Século XX: o direito à verdade e à memória, a reparação, a justiça e o fortalecimento das instituições democráticas. O foco preferencial da justiça de transição recai sobre sociedades políticas que emergiram de um regime de força para um regime democrático, mas também pode ser claramente identificado dentro dos próprios regimes democráticos, sempre que ocorrerem violações de direitos humanos pelo Estado." Ibidem. 

A sociedade brasileira, na sua diversidade, compõe-se de indivíduos e grupos frequentemente violados pelo Estado.

Agora ela toma conhecimento de que o Ernesto Geisel, quando presidente (1974 - 1979) no regime da ditadura iniciada em 1964, ordenou as mortes sumárias e fora do rito judicial de presos políticos considerados subversivos, muitos enquadrados como terroristas com base na Lei de Segurança Nacional. A confirmação coloca no nome do general entre os assassinos políticos da História.


O documento divulgado pelo Departamento de Estado do Estados Unidos é recebido com ressentimentos profundos devido às cicatrizes recentes da ditadura e, provavelmente, pela crise democrática que o Brasil atravessa e a reivindicação, por parte da população, de uma intervenção militar golpista contra o Estado Democrático de Direito, desconsiderando as experiências históricas negativas, a abusividade absoluta do ato e a arbitrariedade dos regimes de exceção.

"Ao serviço do Estado estão aparelhos repressivos fortemente treinados e armados, como as polícias e as forças militares. Na estruturação destes aparelhos se apresenta uma organização burocrática com várias e complexas ramificações, um conjunto ideológico que justifica as suas ações, um forte sentimento corporativo e uma racionalidade instrumental que perpassa todas as suas instâncias. Nenhuma quadrilha ou bando de criminosos de um país consegue igualar tal poderio" Ibidem

Há justificativa para um Estado tornar-se criminoso?
Que esperanças de reparação as vítimas da ditadura Geisel podem ter se confirmadas as arbitrariedades do executivo?

Existirá justiça já que há entendimento de que os crimes de Estado contra a humanidade não prescrevem?


quarta-feira, 21 de março de 2018

Se somente a repressão funcionasse

Escutemos o passado.

Há um grito por liberdade que reverbera por todos os espaços sociais oprimidos do Brasil.

Situemos um ponto: 13 de maio de 1888.

Cais do Valongo, RJ - Debret
Neste dia o Brasil considerava ilegal a propriedade sobre outro ser humano. Consideremos aqui o negro escravizado além do Atlântico, feito cativo num complexo mercado que envolvia conterrâneos do continente africano e europeus economicamente interessados na escravidão.

A abolição da escravidão no Brasil, tardia e pouco planejada, a não ser para favorecer a elite rural com mão de obra barata, resultou de mudanças nas relações comerciais brasileiras com a Inglaterra e ainda outros mercados necessitados de consumo e, portanto, de homens assalariados.

Contudo, tornar livres os cativos não significou inclui-los na economicamente sociedade, nem resultou em esforços do estado em benefício desta população. Suas carências sociais como saúde, saneamento urbano, moradia, escolarização, transporte, lazer e tudo o que depende da renda não foi conquistado, nem supridos em serviços públicos.

No dia 13 de maio de 1888, com a Lei Áurea, o Estado deixou de reconhecer o direito de propriedade de uma pessoa sobre outra. Contudo, isso não significou que todas as relações de trabalho nas sociedades regidas pelo capital passariam a ser guiadas por regras de compra e venda da força de trabalho mediante assalariamento, com remuneração suficiente para a manutenção do trabalhador e de sua família. Leonardo Sakamoto, Cientista Político, USP. 

A marginalização constituiu o berçário de problemas incomensuráveis para o Brasil de hoje.

Exército nas ruas do RJ
O descontrole do estado sobre a violência urbana no Rio de Janeiro, mesmo com a intervenção militar, sugere uma interpretação mais adiante do uso das forças armadas na repressão ao crime.

O crime organizado é negócio.

O mercado de drogas, de produtos do roubo e do furto, sejam eles quais forem, o comércio de serviços e de artigos clandestinos e tudo o que gera lucro à margem da legalidade produz riqueza e compete com a formalidade. Dispensa a burocracia e exerce o direito pela força, uma vez que não dispõe de instituições.

O crime organizado gera renda ao ocupar quem não tem condições ou interesse ou não pretende pertencer à sociedade institucionalizada ou ainda respeitá-la, pois o crime infiltra-se em todas as instâncias.

Reprimir, apenas, o crime organizado não significa eliminar suas raízes.

Mais do que estrangular o fluxo de mercadorias e capital sufocando o negócio, seria preciso tornar o crime organizado uma atividade sem atratividade ou razão de ser por falta de contingente humano.

Aquela demanda necessária desde as origens da pobreza no Brasil: levar o estado e as oportunidades de prosperidade à universalidade da nação. O crime não pode ser alternativa para gerar renda, nem deve haver sensação de impunidade para seus participantes em qualquer posição que se encontrem.

Os governos querem realmente acabar com o crime organizado ou apenas mantê-lo sob controle?

Sem o crime organizado, qual a alternativa de trabalho que a sociedade oferece para quem enriquece ou sustenta-se com ele?

A pobreza e o crime seriam formas mais sofisticadas de escravidão?

Quem ocupa altas posições sociais e pertence às organizações criminosas possui maior grau de responsabilidade pela situação da qual se aproveita?

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Exército começa a sair da "favela teste" Vila Kennedy após um mês de intervenção e poucos resultados

Por que a Lei Áurea não representou a abolição definitiva?

imagens: Mauro PImentel AFP
Repórter Brasil

domingo, 20 de setembro de 2015

Crioulos e pangarés

Oligarcas ruralistas que controlam as forças políticas porque possuem poder econômico não festejam o 20 de Setembro. Não como os peões. 

Celebram a própria fortuna semanas antes na maior feira do agronegócio da América Latina. Movem números entre os quais contam-se aqueles que madrugam na lida e que no tabuleiro social são a linha de frente. Enquanto quantidades de peões trabalham, a classe alta enriquece, aumenta a fartura e o povo, que é povo, aplaude alienado.

No dia em que se rememora a revolução de 1835, se reafirma a versão de heroísmo farrapo. O gaúcho que um dia foi às armas pelos estancieiros assumiu como sua, muito por falta de alternativa de revolucionar por si mesmo, a luta republicana dos patrões. Sua festa segue sendo no barro, na fumaça, no pelego. O peão continua no galpão e a costela saborosa é mais osso que carne que lhe sobra fantasiada de melhor corte. O melhor está na estância. Lá estão os que mandam, herdeiros dos caudilhos, senhores da terra-pampa.

“O sofisticado arcabouço ideológico através do qual, por cerca de um século, a oligarquia sulina expressara seu poder continuou intacto mesmo ao desaparecer a base econômica e política que o sustentava.” (DACANAL, 1985-2004, p. 68). 

Desaparecidas as bases agropastoris do Rio Grande do Sul anteriores à modernização, reinventou-se o pacto social de estratificação por meio da cultura popular. 

Estância e galpão então se fundem para que tudo continue separado.

Crioulos e pangarés.

“Bendito Deus! Pensei eu:
Ando como um esmoleiro,
E me nomeiam herdeiro
De guascas – que é quanto ganho
Quisera saber primeiro
Que fim levou meu rebanho.” (HERNÁNDEZ, Martín Fierro, Canto XVII, 815).  

Fake news é mentira?